segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Entrevista - Projeto de Extensão: Desenvolvimento participativo da cadeia produtiva sustentável de aves no Assentamento Iraci Salete

Coordenadora do Projeto de Extensão e entrevistado: 
Ana Maria Bridi

Participante do Projeto: 
Lourival de Oliveira (assentado)


Desde 2014, o projeto de extensão "Desenvolvimento participativo da cadeia produtiva sustentável de aves no Assentamento Iraci Salete" da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é desenvolvido no referido assentamento, localizado no município de Alvorada do Sul (Região Metropolitana de Londrina).

Os docentes, Ana Maria Bridi, do departamento de Zootecnia, e Adilson Luiz Seifert, do departamento de Agronomia, atuam na coordenação do projeto. As ações contam com o apoio técnico da agente universitária do Laboratório de Medicina Aviária (Departamento de Medicina Veterinária Preventiva - CCA), Kerlei Médici.

Também participam da iniciativa estudantes do Grupo PET de Zootecnia (Programa de Educação Tutorial do curso de Zootecnia), da CATECz (Empresa Júnior do curso de Zootecnia), além de bolsistas dos cursos de Agronomia, Medicina Veterinária e Zootecnia. 

A proposta visa estabelecer processos produtivos baseados na produção sustentável e nos princípios da agroecologia. Toda a produção considera os fatores ambientais locais e os fatores sociais envolvidos no processo.

Após o projeto ter sido contemplado com o Prêmio Santander Universidades 2015 na categoria Universidade Solidária recebendo a premiação de R$ 100 mil em barras de ouro, os coordenadores e a comunidade investirão o valor integralmente na construção de um mini abatedouro de aves no assentamento.





Segundo a coordenação, a infraestrutura garantirá a inclusão do assentamento no Programa Nacional de Alimentação Escolar, que prevê que 30% da merenda escola sejam adquiridos de pequenos produtores rurais. Possibilitando um acréscimo de 30% na renda das famílias atendidas pelo projeto.



O projeto extensionista concorreu ao prêmio com mais de 23 mil projetos universitários de graduação e pós-graduação. Além do incentivo financeiro, serão recebidas bolsas de estudos para o aperfeiçoamento técnico dos monitores da iniciativa.



Ana Maria Bridi também atua como tutora do Programa de Educação Tutorial da mesma graduação. Além de coordenadora, a professora se destaca como a idealizadora do projeto.


PROEX: Como surgiu o projeto e atualmente quantos professores, alunos e técnicos estão envolvidos?

Ana Maria Bridi: Esse projeto nasceu dentro do programa PET de Zootecnia, que envolve ensino, pesquisa e extensão. Então, todas as atividades devem ter as três áreas envolvidas. 

Os alunos solicitaram um projeto que envolvesse ensino e pesquisa. Após isso, nós começamos a trabalhar e construir um projeto de extensão que contemplasse as necessidades do grupo. 

Pois, a partir do momento que o aluno vai ao assentamento, ele volta diferente. Ele está interagindo com uma nova realidade, ele está recebendo informações desses assentados e volta com um monte de dúvidas e conhecimentos culturais que tem nessa região; é um projeto de ensino para esses alunos.

É um projeto de ensino também porque eles têm que desenvolver uma metodologia de como analisar essa realidade e como trazer propostas, que também envolvem pesquisa bibliográfica e prática. E extensão também porque parte do conhecimento gerado aqui na UEL é repassado aos produtores. 

O projeto ganhou corpo maior, quando surgiu a possibilidade de nós inscrevermos ele no Programa Universidade Sem Fronteiras. Nós ampliamos as atividades e convidamos a Empresa Júnior para nos ajudar no atendimento. 

Assim, atualmente nós temos oito docentes das graduações de Medicina Veterinária e Zootecnia. Agora entre os discentes e servidores, se encontram cerca 25 alunos (Grupo PET, Empresa Júnior e discentes de outras áreas) e um técnico que nos dá todo o apoio e é uma das peças fundamentais deste projeto.



P: Quantas famílias participam do projeto?

AM: No assentamento existem 60 famílias. Mas, que participam hoje conosco nas reuniões, oficinas e palestras são entorno de 18 famílias, e as que recebem as visitas técnicas quinzenais são oito.

Agora com o desenvolvimento deste projeto que é a construção do abatedouro, nós acreditamos que vai aumentar o número de famílias que vão ingressar nessas atividades. Pois, como agora você tem a perspectiva de comercialização do produto, então nós acreditamos que mais pessoas irão ingressar.




P: Como funcionam as atividades do projeto?

AM: Nós fazemos reuniões com os assentados e durantes elas nós discutimos as necessidades de cada um ou do coletivo. Geralmente, um problema de uma propriedade é problema de todos. Pois, nós lidamos com rebanho. E junto com eles, traçamos estratégias de ação.

Por exemplo, nós tínhamos uma problemática que era a mortalidade muito grande de aves. Eles relataram isso: “morrem muitas aves, que nascem ou que a gente traz pintinhos de um dia para a propriedade”.

Então fizemos um levantamento para descobrir qual é a causa dessa mortalidade. E depois nós começamos a trabalhar através de palestras e oficinas sobre essas questões que envolviam uma possível contaminação nas incubadoras e outros problemas que ligados aos cuidados técnicos básicos.

É assim que tentamos resolver as dificuldades, seguindo o procedimento de sempre discutir os problemas após as reuniões e depois realizamos um levantamento para ajudá-los a resolver.

P: Como surgiu a necessidade do mini abatedouro de aves?

AM: Nós trabalhamos mais na parte da produção animal, principalmente com aves (carne de frango) e ovos. Nós estávamos tentando melhorar a produção de aves para a produção de carne e chegou ao ponto em que eles queriam comercializar, mas não tinham a inspeção sanitária. E a venda que eles tinham desse frango, era meio clandestina, eles mesmos produziam, abatiam e vendiam em casas e feiras sem fiscalização. Assim, eles tinham medo da fiscalização e não aumentavam a produção.

Para você ter a inspeção é preciso ter um mini abatedouro e agora o Prêmio Santander veio para iniciarmos a construção no assentamento. A partir do momento que tiver o mini abatedouro dentro dos padrões exigidos pela fiscalização, a prefeitura de Alvorada do Sul se responsabilizou em contratar um médico veterinário para fazer a inspeção sanitária. 

Assim, eles irão poder comercializar essa carne, podendo oferecer o produto na merenda escolar da cidade.




P: Existe alguma diretriz para a comercialização dos produtos? 

AM: Na verdade nós não determinamos nada, eles estão livres para comercializar. O que iremos auxiliar é na construção de uma marca e no marketing desde produto. Que é um produto agroecológico e de caráter social, pois vem de um assentamento rural.

P: Qual é a importância do reconhecimento das atividades do projeto por meio do Prêmio Santander?

AM: Esse prêmio foi até uma surpresa para a gente pelo pouco tempo de atuação do projeto. Os assentados ficaram muito felizes, porque a realidade brasileira é difícil, porque assim que o sem-terra consegue um pedaço de terra para plantar, ele não recebe muita ajuda do governo. 

Eles passam por muitas dificuldades. Eles têm a terra, tem vontade produzir, mas não tem dinheiro para investir. Pois, você precisa comprar cercas, equipamentos e animais e isso falta. Então, quando veio o prêmio para a construção do abatedouro, que era um sonho antigo deles, eles ficaram empolgados. 

Isso está se transformando em realidade, é uma possibilidade de aumentar a renda, tem famílias que tem renda de 500 reais por mês, em média. Existem famílias que estão ganhando entre um e um e meio salário mínimo para o mês. Algumas irão dobrar o rendimento com a atuação do projeto.

P: E para os alunos? 

AM: Para os alunos, é ótimo perceber que aquilo que você está trabalhando recebeu uma menção honrosa. Porque para nós o que ficou foi o troféu. O Prêmio Santander nos deu um trabalho, que é desenvolver esse projeto, construir o abatedouro e organizar o funcionamento dessa unidade e ajudar na comercialização dos produtos. O que nós ganhamos foi o estímulo, vocês estão indo pelo caminho certo, você estão ajudando a sociedade e estão tornando essa universidade mais solidária. Acho que esse foi o prêmio que recebemos.

O produtor rural Lourival de Oliveira, 48, mora com a sua família há 16 anos no assentamento e cria em seu lote de 3,6 ha, animais para abate. Há dois anos na criação de frango, Lourival também trabalha com gado e suínos. Participante assíduo do projeto, ele se mostra otimista em relação à expansão das atividades.




P: Quais são as expectativas do senhor e da comunidade para a construção do mini abatedouro?

L: Eu acredito que virão muitas coisas boas, porque sem o abatedouro você fica vendendo aos poucos, meio clandestino. Com a construção você vai legalizando e pode conseguir outros mercados, como feiras e supermercados. Com o frango legalizado você tem essa condição.

P: Em relação à infraestrutura, o que o senhor acredita que pode ser melhorado?

L: Eu acredito que tem que melhorar bastante, porque uma coisa puxa outra. Com o abatedouro você precisa produzir mais e, consequentemente, melhorar também a sua estrutura. Tanto na estrutura física, quanto nos cuidados com a higiene.

P: As oficinas realizadas pelo projeto têm contribuído para a capacitação técnica dos produtores?

L: Eu acredito que tem melhorado bastante, estamos aprendendo muito. Não só aqui, nessas reuniões, oficinas e nas visitas dos veterinários e zootecnistas da universidade, que nos tem ajudado. Mas também temos procurado participar de palestras em outras cidades para conhecer novos projetos.

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