Projeto de comunicação popular cria plataformas digitais para coletivos

Agência UEL

"Queremos que estas pessoas assumam o protagonismo na Comunicação", defende o professor Reginaldo Moreira

Em março de 2014, o projeto de extensão "Produção de TV para a 3ª idade" abria inscrições para a participação de 30 idosos, acima de 60 anos, interessados em aprender produção de televisão e vídeo. Foi o início de uma história que passou pelo programa Tecer Idades, veiculado na TV UEL e na Rádio Universidade FM, e chegou ao atual projeto, intitulado "Plataformas digitais: a produção comunitária de novas narrativas alternativas ao discurso hegemônico, como dispositivo de produção de novos sentidos". Trata-se de uma ampliação do projeto original, com idosos, que contempla também o coletivo de moradores da ocupação urbana Flores do Campo (zona norte de Londrina), que surgiu há quase três anos, e o Coletivo Elity Trans, de travestis e transexuais.

O professor Reginaldo Moreira (Departamento de Comunicação), coordenador do projeto, há tempos demonstra interesse e dedicação por populações vulneráveis socialmente. Sua escolha por começar pelos idosos não foi gratuita: ele é Mestre em Gerontologia pela Unicamp, integrante do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde, e tem uma trajetória que passa por hospitais e outras instituições (foram 17 anos num hospital psiquiátrico em Campinas), onde desenvolveu, entre outros, projetos de rádio comunitária com usuários com problemas de saúde mental. Aliás, atuar com usuários de saúde mental está no horizonte dos planos do professor, que deve renovar o projeto entre o final deste ano e o início do ano que vem.

É importante salientar que o projeto é multidisciplinar e interinstitucional, pois envolve também cursos dos Centros de Ciências da Saúde e Biológicas da UEL, além da Universidade do Norte do Paraná (Unopar) e outros colaboradores externos. Quanto à metodologia, Reginaldo defende que a melhor maneira de fazer é fazendo, por isso coloca os coletivos direto na produção.

COLETIVOS

O atual projeto mantém o programa Tecer Idades, uma radiorrevista veiculada todo primeiro sábado de cada mês, às 11 horas, com 1 hora de duração, e produzido pelos próprios idosos. São 13 participantes, que já levaram ao ar oito programas, exibindo músicas, enquetes, reportagens, relatos, entre outros conteúdos. Reginaldo enfatiza que o grupo é muito exigente com a qualidade do programa. "Eles são muito criteriosos. Se ouvem e não gostam do resultado, querem gravar de novo. São criteriosos na reunião de pauta, na escolha das músicas, em todas as etapas", observa.

O trabalho com os moradores do Flores do Campo (ocupação que teve início em outubro de 2016) começou no início de 2017 e se preocupou em capacitá-los para produzir conteúdos para o You Tube e Facebook. Como há várias frentes atuando no local (saúde, assistência social, etc.), a Comunicação se preocupou em despertar o interesse das famílias pelas mídias e ampliar as vozes já existentes e visibilidade às suas próprias narrativas. "É um trabalho que abre frentes para muitos outros", destaca Reginaldo. 


A UEL é um dos polos nacionais de produção científica na área de Comunicação Popular e Comunitária 


Já entre a comunidade LGBTT, o professor considera os "T" (travestis e transexuais) os mais vulneráveis. "Dados do movimento revelam morte aos 35 anos em média, a maioria por crimes de ódio", aponta. Desde junho do ano passado, é produzido o programa "É babado kyrida!". Foram 11 áudios em podcast gravados e veiculados na AlmA Londrina Rádio Web, uma rádio que veicula programas de caráter informativo e cultural de forma independente. Participam da produção quatro integrantes do coletivo Elity Trans, além de estudantes de Comunicação, Enfermagem, Artes Visuais e Ciências Contábeis, entre outros colaboradores. Na avaliação do coordenador do projeto, trata-se de um formato pioneiro no Brasil, mas não vai parar por aí: como o programa está ficando conhecido em outras regiões, uma ideia é promover reuniões de pauta com participação de outros coletivos. "Sabemos do interesse de coletivos de Belo Horizonte e Curitiba", lembra o professor.

O projeto desenvolve outras ações, como no Feirão do MST, que comercializa produtos orgânicos e é realizado no segundo sábado de cada mês numa iniciativa de dois movimentos: o dos trabalhadores rurais sem terra e dos artistas de rua de Londrina (MARL). Lá, o projeto atua com a Rádio Ambu (de "ambulante") e, ao vivo, num palco, promove debates, anuncia os produtos das barracas, realiza entrevistas, deixa os frequentadores cantarem e fazem lives pela feira - uma espécie de rádio teatro. Para o professor, o rádio, entre tantas mídias, é um excelente "disparador de ações", ou seja, dele podem derivar muitas outras iniciativas.

PRODUÇÃO DE SENTIDO

Todas essas atividades de comunicação popular e comunitária, para Reginaldo, têm como objetivo criar outras narrativas, diferentes dos discursos consolidados pela grande mídia, e produzir sentidos outros, novos.

"Queremos que estas pessoas assumam o protagonismo na Comunicação", sintetiza. Além do trabalho de extensão, a atuação tem rendido artigos e apresentações em eventos científicos. Nisso também o professor quer participação mais atuante dos coletivos mas, por não terem vínculo com a Universidade, às vezes existe um obstáculo formal. Por outro lado, segundo ele, a UEL é um dos polos nacionais de produção científica na área de Comunicação Popular e Comunitária, tanto que oferece uma Especialização na área.

Esta matéria foi publicada no Jornal Notícia nº 1.395. Confira a edição completa.
                 

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